Paraisópolis: racismo, demofobia, aporofobia! E Moro quer licença pra matar

Moradores de Paraisópolis protestam depois de barbárie promovida pela Polícia Militar (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Por Reinaldo Azevedo

A tragédia havida na favela de Paraisópolis, em São Paulo, com nove mortos,
tem de ser chamada por aquilo que é: um massacre. E com autoria definida: a
Polícia Militar. Até que não venham a público os responsáveis por aquele
desastre, com a punição cabível, as mortes têm de ser postas, sim, na conta da
instituição — e, por consequência, do governo do Estado, cujo titular é João
Doria, do PSDB. E que se note: isso é o que pode fazer um destacamento
despreparado da Polícia sem ter a excludente de ilicitude defendida por Sergio
Moro, o santo. Imaginem se ou quando houver licença clara para matar.
Ainda que fosse verdade que policiais militares perseguiam bandidos que os
teriam recebido a tiros, nada justifica a forma como se deu a operação. Não é
preciso ser um grande especialista para perceber que a reação estaria
estupidamente errada. E isso me leva a afirmar sem receio de ser apressado: é
tal o disparate que qualquer pessoa razoável tem o dever de desconfiar da
versão. A PM de São Paulo não é assim tão primitiva do ponto de vista técnico.
Ocorre que é preciso tomar cuidado com o primitivismo moral e ético destes
dias.

A forma como se deu o cerco aos participantes do baila funk, o fato de os PMs
encurralarem os presentes ao evento, o acantonamento de vítimas em becos e
vielas, debaixo do porrete… Tudo aponta para uma operação deliberada contra
o baile funk. Esses bailes estão longe de ser eventos de adoração da lei, da
ordem e do estado de direito. Mas cabe a pergunta: se as autoridades acham
que crimes se cometem ali, estes devem ser combatidos por um Estado
criminoso, assassino?

Essa é a lógica que tem justificado desde sempre a tortura no Brasil — que
nunca cessou contra os pobres e os presos comuns — e que levou a
República, em dois períodos, a mandar para o pau de arara os desafetos do
regime: refiro-me, claro, ao Estado Novo e à ditadura militar.
É asqueroso. Aqui e no mundo, vídeos são exibidos com cenas explícitas de
espancamento, antecedidos de uma advertência: “Atenção! O vídeo a seguir
contém imagens agressivas”. E quem protagoniza a agressividade não são
traficantes, assaltantes, bandidos… Não! Os atores da barbárie são homens
que vestem o uniforme da PM e que deveriam ser reconhecidos pelos pobres
como a “democracia de farda”. Afinal, “policial também é povo”, não é mesmo?

Não se trata de tomar a ação criminosa de um destacamento da PM como
sinônimo do trabalho da corporação. Policiais salvam centenas de vidas todos
os dias. A seu modo, também trazem à vida. São muitos os partos — sim,
partos! — realizados por policiais. Há quase 100 mil homens e mulheres nas
ruas se expondo a riscos variados. É verdade: atos que poderiam ser
chamados de heroicos não chegam à imprensa.

Mas essa é a natureza de um dos entes que detêm o “monopólio do uso
legítimo da violência”, para citar não um troglodita, mas Max Weber. Essa
violência só é aceitável se dirigida contra aqueles que solapam, então, as bases
desse Estado. E, ainda assim, há de ser exercida segundo critérios. E o uso
proporcional dessa força é um dos pilares da legitimidade.
Cabe a pergunta: que crimes cometeram moças e rapazes, encurralados, que
imploravam para não apanhar? Ou a PM pune exemplarmente aqueles que
mancham a reputação da corporação ou estará sendo mais do que conivente
com a barbárie: as nove mortes levarão a sua assinatura.
É uma obrigação moral chamar as coisas pelo nome que têm. Sérgio
Nascimento de Camargo, o novo presidente da Fundação Palmares,
certamente tachará de “mimimi” de militante esquerdista a lembrança de que a
esmagadora maioria da população de Paraisópolis é negra. O homem que,
sendo negro, vê aspectos positivos na escravidão não consegue estabelecer
um nexo entre a servidão e a cor da pele dos que moram em favelas, habitam
os presídios e povoam as covas rasas dos cemitérios.

Camargo não entendeu o que quis dizer o branco e abolicionista Joaquim
Nabuco quando escreveu em “Minha Formação” que “a escravidão
permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Mais
terrivelmente triste e patético: se e quando conhecermos os policiais que
protagonizaram a barbárie, é grande a chance de que sejam eles também nãobrancos.

Uma onda de demofobia e aporofobia — repulsa ao povo e aos pobres —
tomou o país. E ameaça virar política de Estado. Quando Sérgio Moro e Jair Quando Sérgio Moro e Jair Bolsonaro falam em “excludente de ilicitude”, pedem licença para que as forças de segurança possam matar sem receio nem perigo. Matar quem? Os pobres de tão pretos e os pretos de tão pobres.

Fonte: Reinaldo Azevedo/ UOL Notícias

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